Fisiculturista e vegano? O atleta Paru mostra como chegar lá!

Fisiculturista e vegano? O atleta Paru mostra como chegar lá!

  • Aline Baroni
  • Aline Baroni

O fisiculturista Paru Vegan se tornou vegano há 16 anos, depois de ver um vídeo sobre crueldade animal. Ele sempre praticou esportes, mas começou a academia três anos depois da mudança em sua alimentação e estilo de vida. A desconfiança de algumas pessoas que ainda acham que o vegetarianismo não nos oferece nutrientes suficientes para uma alimentação saudável se tornou seu maior combustível. Paru se tornou expert não apenas no esporte, mas também em quebrar mitos. O maior deles? Que é plenamente possível desenvolver músculos e ganhar competições sem que nenhum animal seja explorado para isso.

Confira nossa entrevista com ele.

Como e quando você decidiu se tornar vegano?

Eu brinco que o veganismo me encontrou através do ativismo de pessoas que desejavam fazer o bem. Eu cresci sendo gordinho e nerd, viciado em estudos e video games, sempre fui autodidata. Sofria bullying por estar acima do peso. Para mim, o peso do meu corpo era algo que eu deveria conseguir controlar, mas a vontade de comer predominava.

Conheci o vegetarianismo em uma tentativa de emagrecer. Em um grupo do Yahoo, uma pessoa oferecia cópias do vídeo “Meet your Meat” gratuitamente — estávamos em 2001, internet era discada e gravador de CD ainda era novidade e caro. Eu solicitei sem muita esperança, mas algumas semanas depois eu recebi o CD com aquele vídeo de 12 minutos e não consegui ver nem a metade sem me acabar em lágrimas. Aquilo pra mim foi a gota d’água, eu parei de consumir tudo que era de origem animal, me tornei vegetariano estrito antes mesmo de conhecer o que o termo significava.

Mais alguns dias de pesquisa e fui apresentado às crueldades presentes nos testes, indústrias de vestuário, cosméticos e outras. Digo que virei vegano da noite para o dia, pois o choque foi tremendo. Quando uma pessoa é apresentada a essa realidade e opta por continuar consumindo qualquer produto de origem animal, está sendo cúmplice desses atos.

Quando você começou com o fisiculturismo? Como começou?

Sempre fui uma criança ativa, andava muito de patins, bicicleta e fazia karatê. Meus pais sempre me incentivaram a praticar esportes e, durante a adolescência, com aproximadamente 17 anos a 18 anos, já vegano há 3, comecei a praticar musculação com os amigos.

Com a falta de informações na época, comecei a estudar o que seria necessário para ter um desenvolvimento muscular, já que todos me desacreditaram. Assim, conheci o site Vegan Bodybuilding, onde dezenas de atletas diziam “sim, é possível”. Daí, passei a estudar nutrição por conta própria, a ver os planos alimentares deles, ver o que comiam e o que no Brasil poderia atender àquela demanda de nutrientes.

Meu foco de dieta e treinos passou a ser o ganho de massa magra. Com alguns anos de treinamento percebi que atingi um bom desenvolvimento muscular e em 2013 procurei ajuda para realizar a minha primeira preparação para competição. Mais uma vez fui desacreditado por diversos preparadores de atleta do Brasil, até que conheci um competidor que apostou em mim, ele cuidava dos treinamentos e eu ajudava ele a montar a minha dieta. Assim, em 2014 estreei em competições e já fiquei em segundo lugar no campeonato estadual!

Você faz questão de se posicionar como vegano, de expor essa escolha, tem até isso tatuado nas costas. Como as pessoas reagem?

Sim, eu tento compartilhar essas informações da mesma forma que aquela pessoa que me deu informações quando eu era adolescente gentilmente fez. A tatuagem das costas foi minha primeira tatuagem e uma forma de eu mostrar minha escolha nos palcos, para que, sempre que vissem que havia um vegano, as pessoas lembrassem que existem outras formas de se nutrir e competir em alto nível.

A expressão quase sempre é de incredulidade. Vejo que muitos, ao saberem que existe um “mundo vegano”, continuam sem acreditar, mas outros passam a considerar essa possibilidade.

Como fisiculturista vegano, você deve se deparar com vários mitos e informações falsas. Quais são os mais comuns? E como você lida com essas situações?

Sim, existem vários mitos sobre o veganismo, como por exemplo a falta de proteínas e aminoácidos, ineficiência dessa dieta para ganho de massa muscular, falácia do valor biológico dos alimentos, desconfiança de suplementos vegetais. Eu sempre tento desmentir um a um quando participo de eventos e palestras, elucidando com respostas o mais precisas possíveis e sempre baseado em artigos científicos ou opiniões.

Quantas vezes por dia te perguntam sobre as proteínas? Como você reage?

[Risos] Todas as vezes que é possível. A minha resposta depende muito do interlocutor. Quando percebo que a pessoa tem acesso a informações sobre nutrição, explico detalhadamente que os vegetais possuem todos os aminoácidos necessários, e que eles são a origem das proteínas de vários seres, inclusive os humanos.

Quando percebo que a pessoa está tentado debochar, devolvo a pergunta questionando se ela saberia me descrever como os maiores mamíferos vegetarianos do planeta conseguem atingir tal tamanho. Geralmente as pessoas não sabem como é possível que muitos animais cresçam apenas com alimentação vegetal.

Qual foi sua maior conquista como fisiculturista? E a mais recente?

Para mim, a maior foi a primeira. Foi quando fiquei mais nervoso e inseguro, mas a sensação de ser premiado em minha primeira competição foi indescritível e a repercussão na mídia fez muita gente se perguntar como era possível.

A mais recente foi no campeonato regional, norte-nordeste, em que fiquei em segundo lugar, entre os melhores do país e com possibilidade de competir no nacional.

Como é sua rotina diária de exercícios?

Ao contrário de outros competidores, eu gosto bastante de fazer aeróbicos e atividades cardiovasculares. Como já estou no meu limite de peso para a minha categoria, e por isso não preciso ganhar mais massa magra, consigo encaixar bastante atividades de elevado gasto calórico, como bike indoor e horas de escadaria.

Atualmente faço três treinos por dia, de segunda a sábado, sendo duas sessões de aeróbico e um de treino com pesos. Aos domingos busco atividades mais lúdicas, como pedalar ou passear com os cachorros.

Como é sua rotina diária de alimentação?

A alimentação varia bastante de acordo com as fases, e as fases são determinadas de acordo com as proximidades das competições. Em geral busco fazer pelo menos cinco refeições ao dia, todas contendo carboidrato, proteínas e gorduras. As refeições sempre são acompanhadas de salada verde e legumes. Busco variar as fontes de proteína vegetal, alternando entre as fontes de leguminosas, e ter boa variedade alimentar, fugindo da monotonia alimentar das dietas tradicionais voltadas para competição.

Você diria que tem que se preocupar mais com alimentação do que um atleta que come carne e outros produtos de origem animal?

Creio que não. A alimentação é até mais importante que o treino em meu esporte — não por ser uma dieta vegetariana, mas porque ela é determinante para um bom desempenho

A suplementação é bem parecida com a dos atletas onívoros, só preciso ter certeza da origem ser vegetal. Também sinto a necessidade de ter um bom planejamento para produzir todas as marmitas da semana e ter organização para não pular refeições ou comer alimentos impróprios na rua.

Qual a sua comida preferida? Dá para comer bobagens de vez em quando?

Minha comida preferida era hambúrguer, mas desde quando abri meu próprio restaurante e passei a vender lanches, passei a preferir pizza, que ainda não está no menu. Mas eu como de tudo, pra mim é difícil pensar um alimento preferido, sou apaixonado por açaí sem açúcar e xarope de guaraná.

Dá pra sair da dieta, sim! Costumo dizer que não existem bobagens na alimentação quando se tem estratégia: após muito tempo em dieta restrita, é bom fazer umas refeições livres, comendo alimentos mais calóricos e até com carboidratos refinados para dar um “reset” no corpo, recarregar o glicogênico e dar um descanso no psicológico, para que possa voltar para a dieta mais disposto e mais feliz.